Zinhão fala sobre time de cash, estratégia e sua carreira

Para quem não conhece Mateus Moraes, mais conhecido como Zinhão, é jogador profissional de cash game high stakes e tem um time de poker focado em cash, o Brazilian Poker Crew. É a minoria, já que grande parte dos times foca em torneios. Além disso também é instrutor na plataforma de ensino Sensei Poker. Durante a entrevista quis entender melhor o porque de termos tão poucos times de cash, quais são as diferenças estratégicas dessa modalidade, o que é necessário para entrar no seu time, e claro, um pouco de sua trajetória e história no mundo do poker. Então vamos lá!

Mais Poker- Você poderia contar um pouquinho da sua trajetória no poker?

Zinhão – Comecei no poker em 2006 como recreativo, jogando com amigos, tinha 15 anos. Profissionalmente eu comecei em 2015 jogando torneios para um jogador de Curitiba. Nessa época eu tinha 25 anos, já tinha me formado em administração na faculdade. No final do contrato eu comecei a pensar no que fazer, se eu iria atrás de algum outro time ou patrocinador. Foi aí que eu decidi tentar jogar cash game por conta própria. Eu tinha umas economias do contrato com o patrocinador e usei isso para construir meu bankroll. Quando comecei nos cash games jogava NL 10 e á partir daí fui subindo os limites. Desde então estou no cash e hoje jogo NL 500 e NL 1K online. ( Para quem não sabe, NL 1000 significa que o máximo que você entra na mesa é $1000, ou o equivalente a 100 big blinds. )

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Mais Poker – Você joga cash live também?

Zinhão – Não, sempre online. Aqui no Brasil é inviável jogar cash ao vivo. O rake é muito alto, quase impossível ser lucrativo. Estou até com um projeto de ir para Vegas jogar live em breve. De vez em quando eu jogo as grandes séries live de torneios, no último BSOP Millions fiquei em 20º no Main Event. As séries online de MTT eu não jogo normalmente. Para jogar essas séries tem que fazer um volume muito grande de jogos, eu acabo dando preferência para os cash games mesmo.

Mais Poker – O que te fez escolher o cash game?

Zinhão – O jogo em si me interessa muito, é um jogo mais deep (com maior quantidade de bbs durante o jogo, os stacks são maiores) isso sempre me deixou com muita vontade de aprender. É um jogo que tem mais variação técnica, mais opções de jogada, por normalmente você jogar todas as streets, flop, turn, river. E outras duas coisas fundamentais na minha decisão é que a qualidade de vida é bem melhor. Você tem mais flexibilidade de horários e a variância do jogo é menor. Isso te dá mais estabilidade.

Mais Poker – E sobre a diferença de bankroll? Dos cashs para torneios?

Zinhão – Se você for comparar, vai depender muito do nível de buy in que você joga. Mas a variância dos torneios é infinitamente maior do que do cash game. Por isso, você tem até que ter um bankroll menor para o cash.

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Mais Poker – Como você explica isso da variância do cash ser menor?

Zinhão – A variância é menor porque no cash você e todos seus adversários entram com dinheiro e o EV é aquele. Você ganha ou perde ali e acabou. Nos torneios apenas uns 15% dos jogadores totais são premiados, e para você chegar até lá é basicamente a multiplicação de diversos fatores. Se você perde um flip por exemplo você pode cair do torneio e não ter premiação. Para você ganhar um torneio, por melhor que você seja, tem que ter muita sorte no curto prazo. A quantidade de fatores multiplicados no torneio, pela natureza do torneio, acaba tendo uma variância bem maior. Para você ganhar, uma sequência muito grande de eventos tem que dar certo.

Mais Poker – Uma dúvida que acredito ser frequente nos jogadores recreativos, uma coisa que atrapalha é a diferença do valor do dinheiro para cada um. Por exemplo, alguns estão dispostos a perder R$300 outros R$3000. Ao mesmo tempo que é bom por um lado, você pode esperar uma mão boa e segurar mais o jogo. Mas querendo ou não depende um pouco mais da sorte, você não sente que o cara está jogando para valer. Como você lida com isso?

Zinhão – Isso é o curto prazo vs o longo prazo. O foco é sempre fazer a jogada com o maior valor esperado e tentar não ligar para a variância de curto prazo. E nos jogos online, o máximo que você pode entrar são 100 Big Blinds. Não existe muito isso no live, que um entra com 100, outro com 500 outro com 1000. Para recreativos essa parte da pressão do dinheiro existe. Mas quando você joga profissionalmente você tem que jogar de acordo com seu bankroll, o dinheiro não pode te pressionar nunca.

Mais Poker – Qual a conta do bankroll?

Zinhão – Varia bastante de jogador para jogador. Eu por exemplo hoje em dia, tenho outras fontes de renda. Principalmente o time. Então fica mais tranquilo jogar com uma gestão de bankroll mais agressiva. Mas eu sempre indico 100 buy ins, essa é uma gestão bem conservadora. Desde que comecei jogava com 50 ou 60 buy ins, sendo que 1 buy in são 100 bbs, ou a quantidade de fichas que você joga normalmente.

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Mais Poker – Você comentou que tem um time de cash o BrPC (Brazilian Poker Crew), sempre me perguntei porque é tão difícil encontrar times de cash?

Zinhão – Primeiramente é muito difícil porque, assim como o Piv comentou na entrevista dele, não tem como fazer ghosting né? Gostei bastante da entrevista por sinal, parabéns para vocês dois! Voltando… o jogador vai estar jogando o tempo todo sozinho. É muito mais fácil ser lucrativo fazendo ghosting nas retas finais em MTT. E pela variância no cash ser muito menor, é mais fácil o cara jogar por conta própria. Hoje em dia, um grande trunfo dos times de MTTS até para o jogador é o bankroll que eles proporcionam. Se você pegar caras muito experientes que jogaram em time ou por patrocínio, Padilha, Gusma, HeyAlisson, tem muitos caras desses que precisam de time simplesmente porque não tem bankroll para jogar os limites que eles jogam. Você precisa de muito bankroll para jogar torneios high stakes. E para o cash game é mais tranquilo de administrar. Para ter um time de cash game seu conteúdo tem que ser muito diferenciado, para que você tenha motivos para o jogador continuar no seu time. O maior diferencial de estar em um time de cash é o conteúdo, não o bankroll. Isso é um grande desafio nosso, sempre estudar mais que os jogadores para ter muito o que acrescentar. Porque é relativamente fácil o cara sair e jogar por conta, nosso maior trunfo é definitivamente o coaching.

Mais Poker – Você considera que o cash, por ser um jogo deep stack, é mais profundo e técnico?

Zinhão – Eu diria que é um jogo diferente, você tem situações muito diferentes nos torneios. Você tem que se adaptar á mais tipos de diferenças pequenas de stacks, o que é um grande desafio. Não diria tecnicamente, porque o senso de tecnicamente é vago. Mas quanto ao jogo em si, aprofundando nos atributos do jogo, quanto mais deep você jogar mais atributos você tem que ter. Quanto mais deep mais complexo fica. E a diferença do EV (equidade) vai ficar sempre maior. Um erro de 300 blinds deeps ,por exemplo, é um erro muito maior em EV proporcionalmente do que um erro de 30 bbs deep.

Mais Poker – E como é a sua rotina?

Zinhão – Com o time ela teve que mudar um pouco. O time começou em março do ano passado e foi ganhando corpo, antes tinha 2 jogadores agora já temos 14 e estamos contratando mais. A meta é expandir bastante esse ano. Até cheguei a postar no Instagram minha rotina, mas basicamente é bastante estudo, bastante grind e um tempo para cuidar do time. Tem alguns dias da semana que dou aulas para o time, em outros faço entrevistas para quem quer entrar. Recentemente estamos contratando um psicólogo do time.

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Mais Poker – Muito interessante isso de contratar um psicólogo, conta mais um pouco sobre isso? Qual o papel e a importância dele?

Zinhão – Tem alguns times que já tem, o bitB brasil, o Midas, e alguns outros. O poker é uma atividade que demanda muito mentalmente, não só no jogo em si, mas em tudo que envolve isso. A insegurança que o cara tem na própria carreira, o quanto ele acha que aquilo pode ser sério para a vida dele. Ás vezes tem alguns jogadores que estão em um período difícil lutando para conseguir subir os limites, ou que não ganham muito bem ainda, esses caras tem muita dúvida. Ás vezes o jogador quer entrar no time, mas não quer se comprometer durante 18 meses por exemplo, que é o tempo de duração do contrato. Na verdade ele até quer se comprometer, quer entrar mas não tem certeza se quer o poker ou alguma outra coisa da vida, o poker é uma atividade muito nova e muito incerta. Então o papel do psicólogo nesse aspecto é fundamental, tanto para saber quem realmente está disposto á levar a sério quanto para saber quem tem os atributos necessários para ser um bom jogador. A ideia é que o psicólogo faça sessões semanais ou quinzenais individualmente com os jogadores e palestras. Mas só com aqueles que quiserem, não é obrigatório.

Mais Poker – Mudando um pouquinho o rumo da conversa. O que a pessoa tem que ter para entrar no BrPC?

Zinhão – Nosso time é de low stakes para cima, então pegamos só jogadores de NL 50 mais. Ou seja, jogadores que possam entrar jogando NL 50. Se o cara já for um vencedor no NL 25 ele já pode entrar no time. Abaixo disso a gente não vai pegar, pode até se inscrever para ficarmos de olho, mas não pegamos nessa faixa. Para entrar com a gente o requisito é querer muito, estar bastante envolvido e compromissado, ter nível para jogar NL 25 e NL 50, e jogar o volume mínimo de jogos, que no caso são 50.000 mãos por mês. Temos um formulário que o jogador preenche antes de entrar, ele fala o que ele faz da vida, quanto tempo livre tem, qual a experiência dele, onde conheceu o time, porque quer entrar. Depois disso ele faz uma entrevista comigo e com o Saulo Costa, meu sócio, e o terceiro passo que vamos implementar é a consulta com o nosso psicólogo, depois disso se der tudo certo a gente contrata.

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Mais Poker – Para entrar no time ele já tem que ter o volume necessário de 50.000 mãos por mês?

Zinhão – Ele ter uma constância de volume é bem importante. Se ele costuma fazer um volume de profissional. Se o cara está jogando menos mas se comprometer, e se for muito bom tecnicamente aceitamos também. Mas o ritmo de jogo é bem importante. E temos também uma parceria com um time de micro que é a Card Room. Dei aula na Card Room um tempo, ajudei os sócios que são grandes amigos meus, o Pseudo Fruto e o Bruno a montar o time de cash game. Agora fizemos uma parceria com eles, porque querem focar só nos micros e a gente foca só em mid stakes/high stakes. A gente pega a galera de low stakes tipo NL50/NL100 mas o nosso foco é NL500/NL1K . Nessa parceria que temos nós cedemos os nosso jogadores que quiserem para serem coaches da Card Room. E quando a gente quiser podemos, se o jogador também quiser, trazer ele da Card Room para jogar no nosso time.

Mais Poker – Tem mais alguma outra coisa que você ache legal acrescentar?

Uma coisa que acho importante falar é a relação jogador/patrocinador. Acho que é muito importante que os sócios por trás do time continuem jogando, para mostrar os resultados e dar o exemplo para quem está no time. Alguns jogadores pensam que a gente tem que só dar aulas e ficar o dia todo cuidando do time. Mas eu acredito que, quanto mais resultados os backers tiverem, mais passamos credibilidade para o aluno. Eu como coaching e backer quero sempre estar um passo á frente, seja jogando ou estudando. Para isso preciso continuar sendo jogador, fazendo volume, subindo os limites. Acho que é isso!

Mais Poker – Muito muito obrigada pela atenção e toda disponibilidade Mateus, e por compartilhar tudo isso com a gente!

Para quem quiser saber mais informações sobre o BrPC e seu processo seletivo vou deixar aqui o link do Instagram deles. As inscrições estão abertas!

**Acompanhe as últimas novidades do Mais Poker pelo nosso Instagram: @maispoker

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