Felipe Piv conta trajetória e critica política dos times de poker

Em entrevista Felipe Piv fala sua opinião sobre times de poker, conta sua trajetória e adaptação estratégica do cash para os torneios.

Mais Poker- Conta um pouquinho da sua jornada no poker

Felipe Piv- No começo eu jogava torneio. Aí migrei para o cash em 2008. E até 2016 joguei cash, foram 8 anos focando nisso. Meu jogo principal era Zoom 500, blinds 2.5/5 no Pokerstars. Em 2015 passei por uma downswing grande, passei o ano todo perdendo. Em 2016 mudei para os torneios como jogo principal, depois de passar por essa fase difícil eu estava me sentindo estagnado. Uma boa maneira de lidar com esses períodos é variar um pouco o jogo.

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Nessa época mudei para o bitB, um time internacional de poker. Fiquei lá por um ano e meio, depois entrei como instrutor no 4 Bet, fiquei mais um ano e depois sai para dar aula de forma ampla, para vários times e indivíduos. Ano passado eu tive minha filha, nesse período eu quis diminuir
bastante meu volume de jogo e focar mais nas aulas para passar mais tempo com ela. Em 2013 eu dei aulas no Run It Once, depois de um ano resolvi sair quando o Lipret me fez a proposta para dar aulas no Sensei, uma plataforma com cursos de poker . Basicamente, eu fazia vídeos para o Run It Once em inglês e meus competidores tinham acesso á forma como eu pensava e jogava, e eu achei que isso estava me custando caro. No Sensei eu vi uma oportunidade de poder continuar fazendo o que eu gostava, ter uma renda extra com isso sem dar muitas informações aos meus oponentes, a maioria deles não falavam português.

Mais Poker- Aproveitando o gancho do Run It Once, o que você acha do Galfond Challenge?

Piv- Achei bem massa, tem bastante tempo que a gente não vê algo assim, um jogo bem caro entre bons jogadores para você assistir e acompanhar. Era algo que tinha muito no começo, quando eu comecei tinha bastante action em nosebleeds online, com limites de 200/400, todos os dias. Acho bem legal resgatar isso e poder voltar a acompanhar.

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Mais Poker- Você disse que antes era do cash e migrou para torneios. Como foi essa adaptação?

Piv- No começo foi difícil porque eu não tinha muita experiência em várias coisas que você precisa saber para torneio. Jogar short stack, questão de ICM que é extremamente importante eu não tinha nenhuma prática. Tive
que ir me adaptando a coisas novas e a rotina que muda muito. Quando você vai jogar torneio você tem que ter as próximas 8 ou 10 horas disponíveis direto para você grindar. No cash você pode fazer as sessões intercaladas, e essa liberdade de horário faz com que a rotina seja completamente diferente. Isso foi um pouco desafiador, mas depois de certo tempo foi tranquilo.

Falando um pouco mais a fundo das diferenças entre cash e torneio na parte de estratégia, um jogador de cash normalmente joga sem ante. Isso faz com o jogo seja muito mais tight pré flop, e as situações pós flop são muito diferentes. O fato de ter ante faz com que as pessoas tenham que jogar muito mais mãos. Essa é uma grande diferença, você lida com variados tamanhos de stacks, no cash normalmente você está sempre 100 blinds deep. E o ICM é extremamente importante em várias fases do torneio, na bolha e na mesa final é essencial. E como a maior parte do dinheiro está na mesa final se você comete muitos erros de ICM vai te custar muito, mesmo chegando lá com muita frequência, por ser a hora que mais está valendo cada decisão é crucial.

Mais Poker- Você comentou que jogou para times um tempo, o que você pensa sobre os times de poker? Sobre os deals com os jogadores?

Piv- Essa é uma pergunta complicada, deixa eu pensar… Eu acho que em alguns casos os times no Brasil não agem da maneira que eu consideraria mais legal e correta. Mas acho que é um negócio, e eles tem que pensar como um business e fazer o que vai maximizar a expectativa deles. Então não acho que tenha nada de errado, mas eu nunca tive interesse de ter um time e fazer parte desse meio, por ser um meio que não me agrada muito.

Tem várias coisas que os times fazem que eu considero anti éticas, por exemplo, sou 100% contra ghosting (prática usada pelos times nas retas finais, ao invés do dono da conta jogar quem comanda as decisões são os jogadores mais experientes do time) ou a palavra que eles usam para maquiar isso que é acompanhamento em reta. Acho extremamente anti ético porque a pessoa do outro lado vai ser muito prejudicada, ela não sabe contra quem ela está jogando, ela vai fazer as adaptações achando que está jogando contra um jogador quando na verdade está jogando com outro. Além de que se você é um jogador que joga sem time por sua conta e joga um torneio de $10, quando você chegar na reta final jogar contra jogadores que jogam normalmente torneios de $100 é extremamente injusto. É o que acontece. Então sou contra isso, na época que eu fiz parte do 4 Bet eu não dei nem recebi ghosting, nem no bitB nunca trabalhei com isso. E acho que a grande maioria dos times no Brasil ainda fazem esse tipo de coisa, além de algumas outras coisas, então tem alguns aspectos que eu acho que deveriam melhorar no cenário dos times brasileiros. Mas tirando isso eu vejo o lado bom dos times, o fato de que é uma oportunidade para quem está começando e não tem dinheiro para investir. E também ter acesso a toda estrutura, á comunidade e ao coaching. Acho que isso é bem interessante.

4-Bet responde dúvidas sobre os times de poker e como jogar em um

Mais Poker- No exterior eles não costumam fazer ghosting?

Piv- Acho que não, pelo menos na época que eu jogava no bitB nunca existiu. Não sei se é assim em todos. E no Brasil até onde eu sei todos os times fazem.

Mais Poker- Então é super possível criar um time sem fazer ghosing?

Piv- É muito mais difícil né? Porque para a lucratividade do time é mais complicado. Você perde a equidade de ter um jogador muito melhor na reta final, que vai te gerar muito mais renda. Mas ao mesmo tempo isso é no curto prazo, no longo prazo se você deixa o jogador jogar sozinho você permite que ele evolua e cresça muito mais, e mais para frente possa gerar mais retorno para você. O problema é que tem um contrato, então para os times é mais interessante ganhar o máximo possível imediato em cima do jogador antes que o contrato acabe e ele vá embora.

Mais Poker – Até porque o próximo passo na carreira de um jogador é sair do time né?

Piv- É, deveria ser assim. Isso é outra coisa que eu não gosto tanto. Os times tem meio que uma mentalidade de gerar dependência no jogador. Faz sentido do ponto de bussiness, eles não querem que o jogador saia, eles querem que o jogador continue lá gerando renda para eles. Mas isso acaba fazendo com que ás vezes eles não façam o que é melhor para o jogador. Eles vão fazer o máximo para que o jogador não consiga independentemente seguir o seu caminho. Eles vão fazer que ele precise só ver conteúdos do time, para que ele sinta que está evoluindo e aprendendo por exemplo. E várias outras políticas como essa que faz com que as pessoas tenham mais dependência e não tenham tanta liberdade poder sair depois.

Mais Poker- Mas se você está ensinando para uma pessoa, querendo ou não você está dando independência para ela

Piv- É, de certa forma sim. Mas aí existem outras políticas que são feitas para diminuir essa independência. Eles poderiam fazer as coisas de forma diferentes para gerar essa autonomia. Ensinar eles precisam, para que o jogador cresça e eles ganhem mais em cima do jogador, e também porque faz parte do que é oferecido. O jogador paga parte dos lucros dele para que ele possa ter acesso á bankroll (caixa financeiro) e conteúdo.

Mais Poker- Você comentou no início da entrevista que teve filha a pouco tempo. Como isso impactou suas metas e grind?

Piv- Mudou muito. Com o poker, diferente da grande maioria das profissões que a gente tem no Brasil, eu tenho a oportunidade de ter liberdade. Liberdade de trabalhar bem menos se eu quiser, ou não trabalhar. A licença paternidade no Brasil é basicamente inexistente, e a maternidade dura uns 4 meses, me parece absurdo. Acho que na Europa a licença paternidade é um ano, não em todos os países mas em alguns. Inclusive a gente foi para o EPT Barcelona ano passado e uma coisa que observamos foi o tanto de pais sozinhos com os filhos na rua. Aqui no Brasil não se vê tanto isso, é sempre a mãe. Com o poker eu tive a oportunidade de poder vivenciar essa nova fase na minha vida de forma bem mais intensa e do jeito que eu queria. Estar mais presente, participar de todo o processo e podendo passar o máximo de tempo com a minha filha e com a família. Nos primeiros 6 meses eu diminui muito meu volume de jogo, passei a jogar só nos domingos. E durante a semana, eu dava aulas para ter uma fonte de renda, mas no geral foi um tempo que trabalhei bem pouco. Eu foquei muito tempo em fazer todo o trabalho que envolve ser pai, cuidar e aproveitar a parte de passar tempo junto. Se hoje eu fosse dizer qual foi a melhor coisa que o poker me proporcionou eu diria que foi a liberdade de vivenciar a paternidade do jeito que eu vivi.

Mais Poker- E nesse momento, você já está de volta? Como está a rotina?

Piv- Agora estou trabalhando mais que no começo. Quando o bebê já tem um ano o trabalho é bem menor do que quando é recém nascido. Mas ainda quero passar o máximo de tempo junto, então ainda estou trabalhando menos do que antes de ter filho. Hoje eu jogo 3 vezes por semana e nos outros dias da semana eu dou aulas. Tenho uma rotina um pouco mais flexível que me permite passar um pouco mais de tempo em família. Sexta e sábado são os dias que a Paula trabalha, esses dias que eu cuido das crianças. Da minha filha e do meu enteado.

Mais Poker- Para finalizar, muito obrigada pela entrevista Piv e boa sorte nessa nova fase!

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Por Camila Avelar

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