Do tilt ao Zen: Yuri Martins compartilha os desafios que superou na carreira

Em entrevista exclusiva ao Mais Poker, Yuri Martins conta sobre os desafios pessoais que superou na sua trajetória até o topo. Compartilha sua vida pessoal e seus sonhos para o futuro.

Mais Poker – Conta um pouco da sua história de vida e do seu início no poker até hoje.

Yuri –  Já fazem 10 anos que eu sou profissional, comecei como todo mundo. Jogava na casa de amigos, uma vez por semana com rebuy de R$10. Aquilo tudo era fascinante para mim. Meu irmão comprou o primeiro livro de poker que eu li. Depois de ler percebi que o jogo era muito mais profundo do que eu pensava. Eu não era bom no início, e por ser muito competitivo comecei a estudar . E aí as coisas foram naturalmente ficando mais sérias. Eu não tinha intenção de ser profissional naquela época. Estudava porque eu gostava!

Quando passei no vestibular meus pais passaram por uma dificuldade financeira, por eu não ter passado na federal eu não iria poder fazer faculdade. Iria ter que trabalhar para pagar meus estudos, ou passar na federal. Foi nesse momento que decidi tentar viver de poker por um ano.

E deu certo, parecia que era o destino! Quando chegou a época de fazer o vestibular de novo já não fazia sentido. Eu estava conseguindo ter uma vida boa jogando.

No meu 3 ano como profissional entrei pro time de poker 4-Bet, e depois de entrar fiquei em 32º colocação do ranking do melhor do mundo. Fiquei um ano no time, depois saí.

E em 2014 consegui ser o melhor do mundo no poker online. Em 2015 ganhei um campeonato mundial no online. Em 2019 ganhei o campeonato mundial ao vivo.

A partir de 2015 decidi estudar outras modalidades além do Texas Hold-em e felizmente tives bons resultados. Esse ano eu colhi os frutos e fui campeão do WSOP (World Serie of Poker) no Mixed Game (Stud hi-lo e Omaha hi-lo).

Mais Poker – Qual foi a reação da sua família quando você decidiu ser profissional?

Yuri – Hoje em dia eles são 100% a favor, eles até viajam com a gente para os torneios ao vivo. Na época eles tinham receio. Minha mãe falava que eu tinha que ter um diplome e tal. Ainda mais pela minha irmã é médica. Mas eu pensava “diploma para quê?”. Eu iria ganhar bem menos, ainda mais que ia fazer Design. Então não via sentido em fazer faculdade e largar o poker. Mas hoje em dia ela é super tranquila em relação.

Mais Poker – Antes de ser jogador, você disse que pretendia fazer Design. E que gostava da parte artística e criativa. Ainda tem algum contato com esse lado?

Até meus 18 anos eu era músico, tocava em barzinho para ganhar um dinheiro extra. Já até toquei com alguns músicos do Tiago Iorc naquela época.

Ainda toco violão e canto, sempre tive gosto pela arte. Quando tiver um tempo extra pretendo voltar a estudar música. 

Mais poker – Sobre a fase atual que você está vivendo no poker e pessoalmente. Como conciliar carreira com vida pessoal ? Como você descreve?

Yuri – A questão de ter filho nesse momento é um grande incentivo para que eu trabalhe mais, estude e dê o meu melhor! Mas realmente o é difícil administrar o tempo e se não fosse pela minha esposa seria bem mais complicado. Ela me dá muito apoio! Entende que minha profissão é como a de um atleta olímpico, exige muita dedicação e esforço. Leva uma preparação intensa e muito tempo para conseguir ser o melhor do mundo. O bom é que como eu trabalho em casa consigo passar mais tempo com o meu filho. Antes do grind e durante os intervalos, sempre que tenho um tempinho estou com ele. Em relação as outras partes da vida, eu me tornei uma pessoa melhor. A responsabilidade de ter um filho e de estar constantemente buscando evoluir para ser um exemplo para ele me fizeram crescer. Leio e estudo bastante isso é essencial.

Minha profissão é como a de um atleta olímpico, exige muita dedicação e esforço. Leva uma preparação intensa e muito tempo para conseguir ser o melhor do mundo.

Mais Poker – O que você lê?

Yuri – Além do poker estudo bastante as coisas relacionadas a bíblia e de crescimento pessoal  e espiritualidade.

Mais Poker – Qual lição de vida o poker mais te ensinou?

Yuri – Sempre falo que o poker é a maior escola de vida porque ele te ensina a perder. Você perde constantemente. Não é fácil lidar com essa frustração.

Você pode ser o melhor, mas vai ter muitas perdas mesmo assim. Hoje eu vejo como as pessoas são frágeis em relação a perda. É normal, no meu início eu era uma criança em com isso, era muito reclamão. Com o tempo fui amadurecendo.

Tem outra lição, que é em relação ao dinheiro, de ser mais desapegado. Alguma pessoa usam isso de uma maneira ruim, elas param de dar valor. É importante esse equilíbrio.

Mais Poker- Qual o significado do dinheiro para você?

Yuri-  Para mim dinheiro significa liberdade. Poder estar aonde eu quiser, na hora que eu quiser. Eu gosto disso, o jogo te proporciona essa liberdade de escolha.

Mais Poker- Você mencionou que é muito competitivo. E que antes era difícil lidar com a perda. Qual o papel do seu ego nisso?

Yuri- Antigamente era muito forte. Mas hoje eu busco sempre colocar muita lógica nas minhas atitudes, não deixo a emoção se sobrepor a razão. Quando vejo que minha emoção ou o ego está muito forte eu recapitulo as minhas mesas finais,  analiso meu jogo. Se eu tomei as melhores decisões. Se vejo que fiz tudo que  poderia e que eu joguei da melhor maneira eu fico tranquilo. Mas quando percebo que o erro foi meu tenho dificuldade em lidar com isso. Meu desafio é em relação aos meus erros, e não a bad beat ou um resultado negativo. Por me esforçar muito, sou muito exigente comigo mesmo. Mas o ego com outro jogador tenho muito pouco. Quando jogo no Brasil eu sinto que os outros jogadores tem mais ego em querer me eliminar e pegar minhas fichas. Acho bem chato isso.

Mais Poker – Teve alguma situação na mesa em que você deixou a emoção tomar conta? Que te irritou muito?

Yuri- Sim, infinitas vezes.

Uma vez quando era mais novo e morava com os meus pais eu perdi um dia e dei um soco na porta. Ela tinha um buraco por causa disso. (risos) Eu quebrava mouse, quebrava o fone. Tacava tudo na parede. Era outra pessoa. Totalmente descontrolado. (risos). Com o tempo o poker foi me ensinando. Eu tive que trabalhar muito essa parte.

Chegou um momento que tive que voltar toda a atenção em resolver, porque estava afetando as pessoas ao meu redor. Nessa época, eu tinha muitas variações de humor. Só ficava bem quando ganhava. E no poker a maioria dos dias você vai perder. Eu quase nunca estava bem. Era horrível. Várias coisas me ajudaram a lidar melhor com isso, a terapia e praticar Yoga. Foram anos dedicando até eu chegar no autocontrole que tenho hoje. Isso deve ser uma prioridade na vida, aprender a lidar com as perdas do jogo e não se desestabilizar. Todo mundo pode mudar.

Hoje sou bem mais feliz, para mim agora é um prazer jogar, independente de ter um resultado ruim ou não. Até minhas perdas no poker diminuíram, porque independente de estar numa downswing eu consigo jogar meu melhor no próximo dia.

Mais poker- Você se considera uma pessoal emotiva?

Yuri- Considero, mas hoje em dia aprendi a controlar as emoções. Meu mental é muito mais forte. Uma frase boa que tenho em mente é

“ Resolver cada mão como um enigma, não se prender muito ao que passou. Independente da quantidade de fichas que você tem, existe a melhor maneira de jogar aquela mão específica. Só se deve focar nisso, em resolver. As fichas são como uma maré, elas abaixam e levantam. É um fluxo natural. Com esse mindset tudo fica mais tranquilo”

Mais poker – Tem alguma superstição, que te faça sentir mais seguro na hora de jogar?

Yuri – Tenho sempre um ritual, gosto de me vestir bem antes de jogar. Acordar, fazer um exercício, tomar um banho, tomar café da manhã, falar com minha esposa e com o meu filho e meditação. É todo um ritual até eu chegar no torneio. Se eu não faço isso eu não me sinto tão completo. Gosto de fazer tudo isso para me colocar em um estado mental para que eu performe da melhor maneira.

Mais Poker – O que você sempre leva na sua bolsa para um torneio live?

Casaco, carregador, fone de ouvido e um livro. Nos intervalos ao invés de ficar no celular gosto sempre de ler um livro, me ajuda a acalmar a mente e concentrar mais. Hoje em dia eu vou em um médico de medicina preventiva em Florianópolis. Tomo vários suplementos, e coisas que me ajudam na concentração. São coisas naturais que mando manipular. Inclusive eu tenho uma amiga médica dessa área em São Paulo que chama Dra. Maitê Cesar, ela é bem boa.  

Mais Poker – Você disse que gosta muito de ler, quais livros te marcaram?

Yuri-  “O milagre da manhã” acho ótimo. Me ajudou na rotina como jogador. E “O jogo mental do poker”, considero uma leitura obrigatória para todos os jogadores.

Mais Poker – Quem você tem como referência na vida?

Yuri- Como esportista seria o Kobe Bryant, um jogador de basquete. Acho a maneira como ele levou o basquete quando era profissional é exatamente como eu levo minha carreira. O treinador dele era o mesmo que o do Michael Jordan. Quando Quero me motivar vejo uma entrevista com ele, me inspiro na maneira com que ele lida com as coisas no trabalho.

Victor Azevedo e Deive Leonardo, são inspirações de vida e de espiritualidade.

E tenho alguns amigos próximos no meio do poker que me inspiram muito. Gosto de pegar o melhor de cada um e aprender com isso.

Mais Poker – Um sonho que você tem e ainda não foi realizado.

Yuri – Tudo que eu sonhava quando criança eu busco realizar hoje em dia. Como morar na praia e surfar. Isso já realizei. Mas sempre quis estudar teologia e fazer uma viagem histórica nesse sentido. Ir para Israel, para passar aonde tudo aconteceu.

Mais Poker – Yuri, muito obrigada por compartilhar um pouco da sua história com a gente!

Para acompanhar mais de perto, siga Yuri Martins no Instagram: @yurimdzi .

Por Camila Avelar

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